Theo by Evolue
Blog do TheoSaúde do psicólogo

O consultório inteiro sou eu: quem sustenta o psicólogo no Setembro Amarelo?

A Psicologia acompanha o que há de mais íntimo na vida de uma pessoa. Quem se dedica a esse trabalho também precisa encontrar escuta, apoio e lugar para viver.

Dany Wendel· Psicólogo Clínico · CRP 16/933511 min de leitura
Mulher negra vista de costas, sozinha na poltrona amarela da direita, diante de outra poltrona amarela vazia em um consultório.

Ninguém vive a própria vida em terceira pessoa. Tudo o que nos acontece é vivido por alguém que sente, interpreta, lembra e tenta encontrar uma direção. Uma perda atravessa uma história particular. Uma palavra encontra outras palavras que ficaram. Um encontro pode mudar a maneira como uma pessoa compreende a si mesma e o que espera da vida.

É dessa experiência de ser alguém que a Psicologia se ocupa. Desse eu que procura um lugar no mundo e aprende a existir em relação com outros, às vezes com liberdade, às vezes tentando caber no que esperam dele.

Pense no que pode significar, para uma pessoa, conseguir reconhecer um desejo que sempre deixou para depois. Encontrar palavras para uma dor que só aparecia como irritação. Perceber que pode estabelecer um limite e continuar amando. São movimentos que podem parecer pequenos vistos de fora, mas que, para quem os vive, abrem possibilidades onde antes havia apenas uma maneira de seguir.

Há algo profundamente bonito em poder acompanhar esse processo. Escutar enquanto alguém procura suas palavras, respeitar o tempo necessário para uma compreensão amadurecer, trabalhar para que a pessoa encontre caminhos que reconheça como seus. A clínica nos coloca perto desse esforço humano de compreender a própria vida e participar das escolhas que a constituem.

Quando penso nisso, sinto orgulho da nossa profissão. Gostaria que essa dimensão estivesse mais presente na maneira como falamos dela, inclusive entre nós. Há conhecimento, estudo e responsabilidade nesse trabalho, e há também a disposição de permanecer atento a uma pessoa enquanto ela tenta se encontrar no que está vivendo.

Esse encontro importa. A vida que chega ao consultório continua depois da sessão, nas conversas em casa, nas decisões adiadas, nos vínculos que a pessoa tenta construir. É nesse cotidiano que o trabalho pode ganhar sentido, quando uma compreensão encontra espaço para ser vivida.

A nossa vida continua também, embora seja fácil deixá-la para depois quando o assunto é o cuidado de alguém. Neste Setembro Amarelo, ao pensar em como sensibilizar outras pessoas para a importância de escutar os próprios sentimentos e quem está à sua volta, uma pergunta se volta para mim: será que estou me escutando de verdade?

A pergunta que o filme deixa comigo

Por Que Você Não Chora?, filme de Cibele Amaral lançado nos cinemas brasileiros em 2021, aproxima essa pergunta de uma história. Acompanhamos Jéssica, que saiu do interior para estudar na capital e, durante o estágio em Psicologia, começa a atender Bárbara. Séria e pouco familiarizada com as próprias questões, a estudante se vê diante de uma mulher que vive um processo intenso de autoconhecimento.

Ao longo desse encontro, Bárbara vai encontrando limites e confiança para retomar a própria vida, enquanto perguntas que Jéssica mantinha caladas começam a ganhar espaço. O que parecia servir de orientação para a estudante já não responde da mesma maneira ao que ela está descobrindo. A pessoa que se prepara para acompanhar alguém também precisa olhar para a vida que está construindo. Sinopse reproduzida pelo CRP-MG.

A relação acontece no contexto do acompanhamento terapêutico, durante a formação de Jéssica. Apresentação do filme pela USP. A partir dessa história, penso na passagem entre aprender a cuidar e reconhecer o quanto ainda precisamos compreender de nós. O conhecimento adquirido encontra uma vida que continua fazendo perguntas, inclusive aquelas para as quais preferiríamos já ter uma resposta.

Cibele, que também é psicóloga, falou sobre o autocuidado ao discutir a obra em um encontro do CRP-MG, em setembro de 2021. Registro do debate. Essa aproximação me interessa porque permite olhar para o profissional junto da pessoa que ele é, com a delicadeza que essa convivência exige.

O título do filme pode encontrar muitas respostas fora da tela. Talvez alguém tenha aprendido a guardar o que sente para continuar funcionando. Talvez seja difícil reconhecer uma dor enquanto se tenta oferecer segurança a outra pessoa. Há também quem encontre outras maneiras de expressar o que vive. O choro é uma possibilidade entre elas; o que me importa é a existência de um lugar em que essa experiência possa aparecer.

Na clínica, trabalhamos para que uma pessoa consiga se aproximar da própria experiência com menos medo. Quando chega a nossa vez, esse movimento pode ser difícil, especialmente se carregamos a expectativa de que a formação deveria nos ter preparado para dar conta de tudo.

Eu quero ser cuidado

Há uma cobrança que cabe numa frase conhecida: com sua formação em Psicologia, você deveria saber lidar com isso. Ela pode surgir numa conversa de família, numa discussão de casal ou num comentário sobre uma reação nossa. Se a repetimos por tempo suficiente, talvez nem seja mais necessário que alguém a diga.

Nossa formação oferece, ou deveria oferecer, instrumentos para compreender e trabalhar com o sofrimento, incluindo a possibilidade de reconhecer os próprios limites. Mas continuamos atravessando perdas, conflitos e momentos em que precisamos de companhia para entender o que está acontecendo conosco. Saber a importância de pedir ajuda e conseguir pedi-la podem ser experiências bem diferentes.

Pense na preparação de um caso para a supervisão. Você organiza o relato, escolhe os pontos técnicos e encontra uma maneira de apresentar a dúvida. Enquanto prepara o que vai dizer, há uma parte que pode ficar de fora: o medo de ter errado, a sensação de não saber como seguir, o quanto aquele encontro mexeu com você.

Talvez seja mais fácil explicar o caso do que falar dessa parte. Ela diz respeito ao trabalho e também à maneira como estamos vivendo o trabalho. Para levá-la a alguém, precisamos confiar que haverá atenção suficiente para compreender a dúvida sem fazer dela uma sentença sobre nossa competência.

É nesse tipo de conversa que imagino um apoio que faz diferença. Poder pensar junto, rever uma compreensão e reconhecer a necessidade de orientação, mantendo o sigilo e a responsabilidade pelo atendimento. E poder perceber quando o que estamos buscando precisa de outro lugar, como a nossa própria terapia.

No acompanhamento de alguém em sofrimento intenso, a necessidade dessa interlocução pode se tornar especialmente presente. Há decisões a tomar e incertezas que não desaparecem só porque estudamos ou nos dedicamos. O Ministério da Saúde reconhece a complexidade do suicídio e a ausência de uma fórmula que permita identificar com certeza uma crise suicida. A avaliação e a articulação do cuidado continuam sendo necessárias. Orientações do Ministério da Saúde.

Conseguir reconhecer esse limite exige distinguir a responsabilidade pela nossa conduta da expectativa de antecipar todos os acontecimentos. Um desfecho precisa ser compreendido em seu contexto, com avaliação do que foi feito e das condições existentes. Atribuí-lo automaticamente a uma única pessoa empobrece essa compreensão e pode deixar ainda mais solitário um trabalho que precisa de interlocução.

Por isso, quando digo que queremos ser cuidados, penso em algo que precisa existir na vida comum de quem atende. Alguém com quem seja possível conversar antes de chegar ao esgotamento. Acesso à supervisão, à própria terapia e a condições para rever a rotina quando ela começa a se tornar insustentável. Se for necessário um afastamento, apoio para organizá-lo preservando a continuidade do cuidado dos pacientes.

Eu quero ser cuidado. Quero poder amar essa profissão e encontrar condições para exercê-la com dignidade, com tempo para estudar e espaço para reconhecer quando preciso de ajuda. Essa vontade faz parte do compromisso que tenho com o trabalho e com a vida que quero continuar vivendo enquanto o exerço.

O consultório inteiro sou eu

Essa vontade encontra uma dificuldade muito concreta quando o consultório depende quase inteiramente do próprio profissional. A mesma pessoa que atende termina os registros, organiza horários, cobra, emite recibos e tenta fazer o mês fechar. Escrevi sobre essas camadas em um artigo sobre as três contas de quem atende sozinho, porque elas também determinam o espaço que sobra para pensar e cuidar de si.

Uma manhã reservada para estudar um caso tem um lugar na agenda e um custo na conta do mês. Imagine que você decida preservá-la, mas apareça uma despesa que não estava prevista. Abre uma exceção, encaixa uma sessão e deixa o estudo para outro momento. Se essa negociação precisa ser refeita a cada semana, o horário de cuidado vai desaparecendo sem que tenha havido uma decisão de abandoná-lo.

É por isso que uma recomendação como fazer supervisão precisa vir acompanhada da pergunta sobre como torná-la possível. Há despesas do consultório e da casa, pessoas que dependem daquela renda, compromissos que continuam chegando. A disposição para se cuidar acontece dentro dessa vida, com os recursos disponíveis nela.

O CensoPsi 2022 ajuda a dar dimensão material à conversa. Entre as 13.011 pessoas que informaram sua renda mensal proveniente da Psicologia, a mediana foi de R$ 4.700, o valor central da distribuição das respostas. É um dado nominal da época, de um levantamento por questionários virtuais com coleta entre 2021 e 2022, reunindo diferentes campos de atuação. CensoPsi, volume 1, tabela 12, página 52; período e método da coleta.

Esse valor não descreve a renda atual de todo consultório nem permite saber quanto sobrava para cada pessoa. Ainda assim, ele convida a olhar para a distância entre a responsabilidade atribuída ao trabalho e os recursos que podem sustentá-lo. Quanto dessa renda consegue financiar estudo, supervisão e o próprio cuidado depois de atender às necessidades do mês?

Quando penso na dimensão do que chega à nossa sala, essa distância me incomoda. Esperamos um trabalho atento, qualificado e contínuo, capaz de acolher questões que atravessam a existência de uma pessoa. Precisamos assumir também o custo de preparar, acompanhar e remunerar quem se dedica a ele.

A necessidade de ampliar o acesso da população à Psicologia torna essa conversa ainda mais importante. Quem busca atendimento pode ter poucos recursos, assim como quem o oferece pode enfrentar dificuldades para viver da profissão. São necessidades que precisam ser consideradas em conjunto, com políticas, serviços e formas de organização que permitam cuidar dos dois lados.

O CFP, em seu posicionamento de setembro de 2025, destaca que a prevenção do suicídio ultrapassa intervenções individuais e pede ações coletivas e cuidado contínuo. CFP sobre o compromisso com a vida. Essa perspectiva ganha uma urgência concreta quando falta um serviço no território ou não há com quem compartilhar uma decisão difícil. Nesses momentos, a dedicação do profissional encontra uma necessidade que pede resposta coletiva, com serviços acessíveis e pessoas a quem recorrer.

Uma profissão em que seja possível continuar

Eu gostaria que a valorização da Psicologia fosse reconhecível numa semana comum. Num serviço em que a discussão de casos tem horário dentro da jornada. Num contrato que considera o trabalho feito antes e depois da sessão. Numa formação em que quem está começando encontra orientação próxima e pode admitir que ainda precisa aprender.

Também a reconheceria no modo como uma equipe recebe alguém que diz estar chegando ao limite. É possível rever a carga de trabalho? Há acesso a cuidado e apoio para organizar os próximos passos? Uma instituição comunica o valor que dá às pessoas também pela resposta que oferece nesses momentos.

Entre colegas, podemos construir espaços regulares de interlocução, estudo e supervisão, atentos a quem consegue participar. Se o encontro sempre depende de dinheiro ou ocupa um horário em que a pessoa precisa atender, parte da categoria continuará do lado de fora. Essas barreiras merecem entrar na organização do espaço desde o início, junto com o respeito ao sigilo e à finalidade de cada conversa.

Sou psicólogo e cofundador da Evolue, onde desenvolvemos o Theo e a Luna, ferramentas de inteligência artificial para apoiar a organização administrativa do consultório. A Luna atua sob supervisão do psicólogo e não faz psicoterapia. Esse apoio exige acompanhamento profissional e não substitui supervisão clínica, cuidado pessoal ou serviços de emergência. Nesse trabalho, me interessa a possibilidade de que a organização também abra espaço para estudar, descansar e viver fora do consultório.

É essa vida que eu gostaria de preservar junto com o trabalho. Poder encerrar o dia e ainda ter disposição para uma conversa em casa. Encontrar tempo para ler algo pelo prazer da leitura. Estar com alguém sem precisar aproveitar cada intervalo para resolver uma pendência. São desejos comuns, e deveriam caber na vida de quem exerce uma profissão dedicada a compreender a experiência humana.

Penso de novo no que significa acompanhar uma pessoa enquanto ela tenta encontrar palavras, reconhecer um desejo ou construir uma relação em que consiga existir com mais liberdade. Quero que possamos continuar fazendo esse trabalho com interesse, conhecimento e presença, encontrando nele também alegria e sentido.

Neste Setembro Amarelo, quando eu falar da importância de procurar ajuda, quero conseguir me incluir nessa possibilidade. Escutar os outros e continuar encontrando maneiras de me escutar. Participar de uma profissão em que admitir uma necessidade possa ser o começo de uma conversa acolhida por alguém.

A vida que merece cuidado inclui a nossa. Gostaria que a valorização da Psicologia chegasse até esse ponto: ao orgulho pelo que fazemos e à possibilidade concreta de seguir fazendo, com companhia e lugar para viver.

Onde buscar apoio: uma UBS ou um CAPS pode ser um caminho para procurar cuidado. O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo 188, 24 horas por dia. Em uma emergência, acione o SAMU 192 ou procure um serviço de urgência. Canais indicados pelo Ministério da Saúde.

01 · de 05

Eu te preparo pro próximo paciente

Oi Theo, me prepara pra sessão da Maria às 16h30.
T

Maria, hoje às 16h30, presencial. Ela confirmou a sessão pela Luna e está em dia no financeiro.

A evolução da última sessão está aprovada no prontuário. Essa semana ela conversou com a Luna 3 vezes, nenhuma com indicador de risco.

Quer que eu resuma a última evolução ou as conversas da semana?

Antes da sessão, eu trago o contexto pelo chat. Você decide o quanto quer aprofundar.